Tratada como grande
trunfo da acusação, as gravações em
vídeo da confissão do pedreiro Oscar Gonçalves
do Rosário em Canoinhas, e da reconstituição
do suposto crime na Igreja Adventista, em Joinville, revelaram na
verdade que tudo não passou de uma encenação
malfeita para fundamentar um inquérito policial sem uma prova
material sequer. A convicção é da advogada
Elizangela Asquel Loch e sua colega, a bacharel em direito Camila
Mendonça de Freitas, que na semana passada finalmente tiveram
acesso às gravações. Conforme as defensoras,
o vídeo que diziam trazer descrições convincentes
e detalhadas do pretenso crime mostra, na verdade, o pedreiro repetindo
afirmações sopradas pelos policiais que o interrogavam,
fixava os olhos nos delegados como se pedisse comprovação
do que falava e, por vezes, era convencido a voltar atrás
no que afirmava para ajustar o discurso ao que os policiais queriam
ouvir.
Lembrando o vídeo, Elizangela relata que, em determinado
momento, o delegado Dirceu Silveira Júnior perguntou para
o pedreiro se no pátio da igreja havia carros. De pronto,
o pedreiro respondeu que não. Descontente com a resposta,
o delegado repetiu como se insistisse em buscar outra resposta.
Sentindo que não era aquilo que deveria ser respondido, Oscar
mudou a resposta na segunda oportunidade, dizendo: “Ah, então
tinham uns dois carros”. Para azar do delegado, fotos apresentadas
na mesma audiência comprovam que o pátio da igreja
estava lotado, com aproximadamente 20 veículos.
Em outra oportunidade, Dirceu pergunta como ele tirou a roupa da
menina para cometer o crime. Na seqüência, o vídeo
mostra Oscar respondendo: “É, mas vocês falaram
que ela tava de fralda. Então eu tirei a fralda; ué!”.
Ainda na confissão, Dirceu pergunta se havia alguma coisa
no corredor onde aconteceu o suposto crime. De pronto, novamente
o pedreiro responde que não havia nada. O delegado então
repetiu a pergunta, mas desta vez sinalizando com a mão os
degraus de uma escada. Entendendo o recado, Oscar respondeu: “Tinha
uma escada lá”.
Mais incongruente ainda que o relatado da confissão, onde
o pedreiro afirma que teria sufocado a menina, dado um soco no peito
e abusado dela – apesar de nenhuma marca disto ter sido constatada
no corpo pela médica que a socorreu no hospital, a imagem
da confissão mostra o pedreiro afirmando que fez tantas coisas
ao mesmo tempo, que precisaria ter quatro mãos para empreender
a ação.
Reconstituição entre risos
A segunda fita mostrada na audiência foi da reconstituição
do pretenso crime, em 13 de março, um dia depois da prisão
do pedreiro em Canoinhas. Na opinião da advogada Elizangela
Asquel Loch, novamente ficou claro que o pedreiro foi induzido a
encenar cada ato seguindo o roteiro dirigido pelo delegado, mas
desta vez também com a participação do promotor
Andrey Cunha Amorim.
Cercado pelo grande aparato policial que fechou a rua Guaratinguetá
(Iririú), sem um único carro no estacionamento da
igreja – ao contrário do dia do fato, o delegado soltou
Oscar no pátio e mandou repetir o suposto crime. Em dado
momento, Oscar pega a boneca e se dirige para uma das portas laterais
da igreja. Mas, ele entra pela porta errada. Todos param a encenação
e os policiais o pegam pelo braço e o conduzem pela entrada
correta, a porta que dá acesso ao suposto local do crime,
corrigindo a ação que estava sendo gravada.
A pantomima continuou dentro da igreja, mas desta vez o ato ganha
feições de verdadeiro constrangimento. Para demonstrar
maior realidade, em dado momento o delegado manda Oscar baixar as
calças e simular que estava se masturbando. As ordens são
firmes e ouvem-se risos.
“é triste”
Para a advogada, as duas gravações
que duram aproximadamente 1hora e 40 minutos retratam bem tudo
que vem acontecendo no processo contra o pedreiro. “É
triste. E se eu tivesse no lugar dos policiais, nem teria filmado”,
conclui a defensora que espera o juiz decidir seu pedido de revogação
da prisão do pedreiro. Ela também se diz confiante
que Oscar sequer vá a Júri Popular, face a completa
falta de provas da promotoria.
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