Caos na saúde
 
De mal a pior
 
Quem chega em busca de socorro em qualquer Pronto-atendimento 24 horas tem o atendimento negado e é obrigado a percorrer a via crucis da saúde em Joinville
 
O cidadão necessitado de socorro médico está sendo aconselhado a procurar o Hospital São José ou o Regional e entrar em uma fila de espera que pode durar mais de 10 horas.

O que se vê nos hospitais públicos de Joinville são as salas de espera cheias e filas que não andam. Muitas pessoas sofrendo todos os tipos de dores, inclusive com suspeitas de doenças contagiosas esperando a vez de ser atendidas, juntamente com crianças e idosos doentes. Essa espera pode varar a madrugada.

A situação da saúde em Joinville sempre foi ruim. Mas o sofrimento do povo aumentou com a greve nos PAs da cidade, fruto do descaso quando o assunto é saúde. Quem precisa recorrer ao atendimento através do Sistema Único de Saúde (SUS), percebe apenas o descaso com que o acesso à saúde do joinvilense é tratado e sobrecarrega a capacidade do Regional e do São José.

Exemplos não faltam. Na última segunda-feira (11/6), a balconista Aline Aparecida Paoli, de 19 anos, residente no bairro Nova Brasília, passou mal em sua casa e desmaiou. Devido à greve, ela foi encaminhada para o Hospital São José onde chegou por volta das 13 horas. Foi atendida apenas às 17horas, após quatro horas de espera, recebeu soro e seu atestado médico para apresentar no trabalho. “Caso não melhore, volte aqui novamente”, foi o que disse o médico. A garota que foi atendida desconfia estar com problemas estomacais, apesar disso não recebeu pedido algum de exames por parte do médico.

Já Salete Palotin, 36, que trabalha como babá, ao chegar no São José já foi alertada na recepção que para ser atendida levaria de 2 a 5 horas. Salete, que na mesma segunda-feira aguardava sua vez, conta que estava tentando ser atendida desde sábado de manhã, juntamente com seu filho que também tinha dores fortes, sintomas de gripe e dores no corpo. No PA Sul, recebeu a informação de que apenas emergências graves seriam atendidas. Desistiu de levar o filho ao médico.

No Regional, a situação é dramática

Eram 20 horas e muitas das pessoas que aguardavam atendimento estavam sem almoço, pois haviam chegado ainda na parte da manhã. Varias pessoas perderam seu dia de trabalho e teriam que esperar o tempo que fosse, pois são obrigadas a entregar um atestado médico que justifique a ausência no trabalho. E muitas eram as reclamações de quem entrava para esperar sem uma garantia de atendimento.

Apenas casos graves seriam atendidos com mais rapidez. Agora o mais difícil é saber o que pode ser considerado um caso grave sob a ótica dos atendentes do guichê do hospital. Cláudio Gonçalves, comerciante de 35 anos, estava há três dias com hemorragias e chegou para ser atendido. Foi encaminhado para a espera. Seu caso não foi considerado grave. “É uma falta de respeito com quem paga seus impostos e quando precisa não tem atendimento”, reclamava o comerciante.

Assim, quem espera na fila corre o risco de morrer por falta de atendimento, já que são considerados menos graves casos que sequer são diagnosticados.
Nelson da Silva, pintor, 47 anos também estava perdendo o dia de trabalho, e como muitos ali, estava sem almoço e aguardava a sua vez para a consulta. Apesar de visivelmente abatido pela doença, estava mais preocupado em conseguir um atestado médico para explicar ao patrão sua ausência no trabalho. “Quem está aqui não vem a passeio, enquanto isso o prefeito viaja, constrói Arena e não liga para o povo de Joinville!”

Casos como esse e de pessoas que sofrem na espera são muitos.
José Vicente Fugazza, marceneiro aposentado acompanhava sua esposa na espera. Ela estava com suspeita de intoxicação alimentar, e aguardava na fila há 5 horas, mesmo com a urgência do caso, soube por funcionários do hospital que ainda havia 28 pessoas para serem atendidas antes de chamarem sua esposa.

A diretora do hospital Regional, Ana Maria Jansen, desculpa-se sustentando que o Regional está fazendo o que é possível. “Obviamente, há um acúmulo de atendimentos que não eram pertinentes ao nosso hospital, e que gerou todo o problema”, diz a diretora.

O que dizem os responsáveis pelo caos na saúde pública

O impasse na questão da saúde em Joinville parece não ter solução e o povo sofre entre o descaso de lado a lado. O médico Clóvis Vitali, que fala em nome dos colegas, diz que a greve irá continuar; e de outro lado o secretário municipal da Saúde, Norival Silva, que diz estar esperando os médicos dos PAs voltarem ao trabalho para continuar as negociações.

O que parece realmente é que nenhum dos lados está com boa vontade para negociar, e quem sofre é a população da cidade, que pena em longas esperas e tem seu direito à saúde negada, apesar de pagarem seus impostos.

O médico Clóvis Vitali reclama principalmente das condições salariais dos médicos que trabalham nos PAs e que recebem em média R$ 1.600 reais em carteira, valor muito abaixo dos R$ 3.400, o piso salarial da categoria. Os médicos de PA recebem R$ 22,00 por hora trabalhada, Vitali cita que em Canoinhas os médicos recebem R$ 45,00 por hora. Vitali reclama ainda que os médicos não recebem adicional noturno ou de feriado como os médicos de outros postos recebem.

O secretário Norival Silva rebate as reclamações, afirmando que além do que já ganham, os médicos têm um adicional por produtividade, cujos rendimentos dependem de quantas pessoas eles atendem. Norival diz que existem médicos de PA que chegam a receber R$10 mil com esse adicional. “No dia 24 de abril foi meu o primeiro dia como secretário, eu chamei os médicos, conversamos, e foi pactuado e houve acordo em algumas coisas.”

Por isso, Norival disse considerar a greve “intempestiva e leviana”, pois mesmo após terem fechado uma negociação anterior, os médicos resolveram entrar em greve, que ele considera “uma assembléia de última hora”.

Criança pode perder dedo por descaso médico

E não faltam exemplos práticos de que o caos na saúde de Joinville já compromete a população. Um garoto de três anos foi atendido no Hospital São José, vítima de um acidente com uma bicicleta onde por muito pouco não perdeu o dedo, praticamente amputado. O acidente aconteceu na tarde da última sexta-feira (8). De imediato foi feita uma cirurgia de reimplante, e na noite do mesmo dia o garoto foi transferido ao hospital infantil. Mas a família reclama que após a cirurgia o garoto não recebeu o atendimento necessário. Nenhum médico checou o curativo do menino até segunda-feira à noite [mais de dois dias depois], o que dá cerca de 50 horas sem atendimento de um médico. Como o implante ficou quase sem circulação, o médico orientou à mãe que, caso o garoto não melhorasse, seu dedo seria amputado nesta quinta-feira (14).

Radioterapia ultrapassada

Em Joinville, uma média de 65 pacientes diários necessitam do tratamento de radioterapia. O procedimento, que dura de 2 a 3 minutos em situações normais de funcionamento do aparelho que faz a emissão de radiação sobre o tumor, é realizado ao longo de 1 mês e meio. No entanto, com os freqüentes problemas técnicos ocorridos, esse prazo pode aumentar, fazendo com que muitos tenham que esperar o conserto, deixando o câncer na dianteira da corrida, onde a conseqüência pode ser a morte.

O problema está no equipamento disponível para os doentes, uma ultrapassada máquina de telecobalterapia, popularmente chamada de bomba de cobalto. A situação deixa a maior cidade do estado com um verdadeiro exército de pacientes desassistidos e com uma terapia sem a precisão adequada em muitos casos, inclusive podendo levar à morte alguns deles. Hoje, além da Capital, os municípios de Criciúma e Chapecó já dispõem dos aparelhos, mas, Joinville que atende toda a região Norte, Nordeste e Planato Norte de Santa Catarina, espera há anos a promessa de uma solução para amenizar a dor de quem briga com a morte.

Três fases

Ao receber o arrasador diagnóstico de câncer, muitas pessoas sentem o chão desaparecer. O problema se deve a uma questão cultural, na verdade um tabu ainda não desmistificado e que acarreta um agravamento do estado psicológico dos acometidos por essa enfermidade, dificultando assim o seu tratamento. Mas, a caminhada que esses pacientes terão que enfrentar em direção à cura, inevitavelmente será árdua. O médico radioterapeuta do Hospital Municipal São José, em Joinville, Ricardo Polli, explica que depois de detectada a doença, e dependendo da malignidade do tumor, a pessoa passará por três fases de tratamento. A primeira consiste em extirpar cirurgicamente o tumor, a segunda seria um tratamento quimioterápico, que consiste na administração de medicamentos que combatem as possíveis células cancerígenas em volta da área atingida. Entretanto, a via crucis começa justamente na terceira e última etapa do combate, a radioterapia.

Perigo

O equipamento do setor oncológico do Hospital São José, está instalado há mais de 15 anos, e apesar de ultrapassado e com o surgimento de novas tecnologias na área, o médico Ricardo Polli, afirma que a máquina utilizada ainda é bastante eficaz. Embora o médico se mostre otimista e bastante empenhado em relação à produtividade da bomba de cobalto, há especialistas que alertam para a parte negativa do tratamento com esse recurso. Conforme uma norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 40 das 100 máquinas instaladas no Brasil deverão ser desativadas em dois anos, pois, muitas apresentam a impossibilidade de receber novas fontes de radiação, não podendo ser incrementadas com novas tecnologias, ou ainda, oferecer riscos aos pacientes com uma radiação efetuada a uma distância não recomendada. Conforme o chefe de radioterapia do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o médico Carlos Manuel Mendonça de Araújo, “existe uma dose de tolerância para cada tecido do corpo humano, bem como para uma exposição de radiação no corpo total. Excedido esse limite, o paciente poderá ter desde complicações localizadas e, dependendo da intensidade da radiação, chegar a falecer”, lamenta Carlos.

Promessas para quem não tem tempo

Ainda segundo o médico Ricardo Polli, há promessas feitas pela Secretaria de Saúde do Estado para a aquisição de um novo equipamento chamado acelerador linear. Porém, ele ressalta que a solicitação desse novo aparelho já foi feita há muitos anos, “Em 2001, época em que o ministro da saúde era José Serra e posteriormente candidato à Presidência da República, Joinville teria recebido uma verba para essa aquisição, mas devido a um problema cambial após a eleição do atual presidente, Luis Inacio Lula da Silva, o dinheiro voltou para Brasília” lamenta Ricardo.

Depois disso o hospital tentou viabilizar a compra junto à Secretaria de Saúde, mostrando o número de doentes que são atendidos na região, cerca de 1 milhão e meio de pessoas, e o alcance social que beneficiaria os segurados do Sistema Único de Saúde (SUS), já que, a maioria dos doentes são oriundos dele. Em 2006 o hospital participou de um pregão em Florianópolis, que resultou em apenas mais uma promessa da doação de um acelerador linear. Por enquanto existe somente a expectativa. pr
oveniente dessa compra que, se efetivada, resultará numa ação mais localizada e profunda do tratamento do câncer, proporcionando ao portador da doença uma expectativa de vida maior e equilibrando o atendimento, pois a cada semana surgem novos casos de câncer em Joinville e região.


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