Caos na Saúde
 
Pedindo socorro
 
Quase três anos depois e R$ 22 milhões gastos, Ulisses Guimarães continua sonho distante
 
Rogério Giessel • Especial para a Gazeta de Joinville
 

Morte, obra paralisada e informações desencontradas estão entre problemas da saúde em Joinville. Uma vala aberta há semanas no acesso ao pronto-socorro do Hospital São José se transformou em um obstáculo de morte para uma senhora, que agonizou no pátio do hospital.

A implantação de tubulações na demorada construção do Complexo Emergencial Ulysses Guimarães impede o atendimento ágil às pessoas em situação de emergência que entram de carro pela avenida Getúlio Vargas. No local, não há uma placa sequer indicando outra via de acesso. Fatos como este têm gerado revolta nos usuários da saúde pública e funcionários que trabalham naquele hospital. O complexo Emergencial, inicialmente orçado em R$ 9,5 milhões, e com entrega prometida à comunidade para dezembro de 2004, ainda está inacabado. No entanto, em 2005, a construção do complexo Ulysses Guimarães consumiu mais R$ 12,3 milhões através de um projeto municipal de auxílio financeiro, número 45/2005 de 30 de maio de 2005, aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde.

Passados exatos dois anos e meio, a população da maior cidade do Estado, ainda não pode contar com os benefícios da obra, pelo contrário, colhem apenas os transtornos.

Vala no São José separa a vida da morte

Na última quarta-feira, dia 11, por volta das 13 horas, uma filha desesperada entrou no acesso que deveria levar até às portas do pronto-socorro do hospital. No interior de seu carro e passando muito mal, estava sua mãe com um principio de infarto. Porém, uma desagradável surpresa lhe aguardava. Na pequena via que dá acesso ao pronto-atendimento, uma enorme vala impossibilitava que ela se aproximasse do socorro que poderia salvar a vida de sua mãe. Desesperada, se viu obrigada a abandonar o carro e a mãe agonizante diante da vala e correu em direção ao pronto socorro para pedir auxílio.

O que se seguiu após a lamentável cena foi um verdadeiro absurdo. Segundo o técnico em analises clínicas, Dorotéio Pereira dos Santos Filho, que estava no local e presenciou a angústia de quem tentava salvar a vida da mãe, relata que ao se deparar com um veículo de portas abertas e no seu interior uma senhora necessitando de cuidados médicos urgente, resolveu transportá-la até a emergência no colo, mas como à senhora começou a ter convulsões e a perder o sentidos, tornou-se muito pesada. Naquele momento, Dorotéio pediu auxílio a única pessoa que estava próxima, um rapaz que havia acabado de sofrer um acidente de moto e também aguardava atendimento. Juntos carregaram a senhora, mas, infelizmente, segundo o relato de Dorotéio, ela não chegou com vida na emergência. “Ela morreu em meus braços, enquanto a carregava”, lamenta o técnico. Sem mais nada a fazer que pudesse ajudar aquela senhora, funcionário e paciente a depositaram no chão, na entrada do pronto atendimento. Somente nesse momento é que veio alguém da enfermagem com uma maca e conduziu a senhora já sem vida para o interior do hospital.

Dorotéio conta ainda, que quando chegou na entrada, percebeu a filha da mulher ainda de pé no balcão aguardando ser atendida. O técnico diz que situações semelhantes a ocorrida na quarta-feira, dia 11, expondo as pessoas que precisam do setor de emergências a uma fatalidade, são comuns.

O problema existe há mais de dois meses. Dorotéio, indignado relatou outros casos de emergência que entraram no hospital pela estreita rua, e se viram frente a frente com a vala. “As pessoas chegam com um acidentado ou alguém passando mal e se desesperam quando percebem que não podem ir adiante”. Perplexo com o descaso questionou uma pessoa que cuidava da obra inacabada sobre a vala aberta, obteve como resposta o seguinte: “a obra está parada e os operários foram transferidos pra outro local”, informou um vigia.

Diretor do hospital confirma paralisação,
mas secretaria nega


Procurado por pela reportagem, a assessoria da Secretaria de Saúde do município confirmou a morte da senhora, mas negou que a obra esteja parada. Eles explicaram que o complexo está em fase de implantação de tubulações hidráulicas e de oxigênio, e que o processo é lento. A assessoria explicou que isso dá a impressão para quem trafega por ali, que a construção está interrompida, mas insistiram que tudo corre dentro do previsto: “A obra continua de vento em popa; não falta dinheiro e com a empreiteira esta tudo em dia”.

Quanto à vala aberta para a passagem de uma tubulação, o representante do órgão negou que a mesma tenha sido aberta há mais de dois meses. E quanto ao óbito da senhora, argumentaram que tudo não passou de uma fatalidade.
Mas, existem contradições. Apesar de cauteloso nas palavras, o problema é confirmado pelo diretor do Hospital Municipal, o médico Jaime Ferreira. O diretor se limitou a informar que, ao contrário do alegado pela secretaria, a obra realmente está paralisada.

 
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