Caso Gabrielli
 
Legista quebra o silêncio e afirma:
Não houve estupro e nem atentado violento ao pudor
 
Rogério Giessel – Especial para a Gazeta de Joinville
 

Nem o mais inspirado roteirista de cinema poderia imaginar a trapalhada que se tornou o caso da morte da pequena Gabrielli Cristina Eicholz, e que redundou na prisão do pedreiro Oscar Gonçalves do Rosário, encarcerado a mais de 150 dias vitima de uma polícia despreparada, incompetente e que cada vez fica mais evidente que lançou mão de uma farsa para aplacar os ânimos da opinião pública e a determinação do governador para resolver rapidamente o pretenso caso criminoso.

O médico João Domingos Koerich, responsável pelo laudo cadavérico da menina e que até agora se mantinha em silêncio, respondeu a reportagem da Gazeta com uma afirmação tão bombástica quanto a revelação do “Segredo de Fátima”: “Não houve estupro, nem atentado violento ao pudor. E a lesão no crânio, constatada no exame, poderia facilmente ter sido causada por uma queda”. Ele confirma, no entanto, que havia uma lesão no anus da menina, fato que pode ser comprovada pelas fotografias feitas durante a autopsia, mas, admite que a origem da lesão poderia ter varias causas, e não evidencia um possível atentado violento ao pudor. “Não houve penetração anal; esta no laudo”, e destaca: “Além desta lesão, o que a menina apresentava de estranho era um hematoma na região do pescoço”. O médico também admite que essa foi sua primeira autópsia, mas diz que está apto a realizá-la, pois no curso de medicina em que se formou, uma das cadeiras era a de medicina legal. “O objetivo do exame que realizei não era apontar um culpado, e sim determinar a causa da morte”. Koerich também confirma que não encontrou vestígios de sangue ou sêmen na região anal, o que não justificaria, portanto, um exame de DNA.

Com a revelação, ganha força o depoimento do médico legista Nelson Quirino, que viu as fotos da necropsia no corpo da menina e que desde os primeiros momentos já sustentava que não existiu crime, senão um fatídico acidente que vitimou a criança. A declaração do médico João Koerich também acaba por confirmar as declarações da médica Luzinete Soares, que atendeu a pequena Gabrielli no Hospital Regional no dia de sua morte, e que sustenta que a fralda da menina estava intacta, sem sangue, esperma ou qualquer outra coisa que indicasse violência sexual.

O médico João Domingos Koerich, diz ter atuado na necropsia de Gabrielli Cristina Eichholz, como manda o código de ética médica, e se mostra bastante indignado com as críticas que vem recebendo. Ele relembra que era por volta das 16 horas do dia 03 de março, quando o delegado de polícia Rubens de Almeida Passos Freitas solicitou ao médico para realizar o procedimento legal no corpo de Gabrielli. De acordo com ele, por se tratar de uma criança e nessas circunstancias, aliado à obrigatoriedade da lei, prontamente atendeu ao chamado do policial. Após receber o termo de nomeação concedido pelo delegado, dirigiu-se ao Instituto Geral de Perícias, encontrando Gabrielli apenas de fralda e coberta por um lençol. Às 17 horas, iniciou o procedimento. Koerich diz que em nenhum momento o laudo produzido por ele, menciona ter havido violência sexual contra a pequena Gabrielli. Ele apenas atestou a causa mortis por afogamento.

O laudo de número 81/07, juntado ao processo, realmente não diz que houve violência sexual. Nos quatro quesitos apontados no documento, o médico responde sim para morte; afogamento para causa da morte; prejudicado para o instrumento da morte; e também prejudicado onde se pergunta se a morte foi produzida por asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel. Prejudicado, no caso, quer dizer que o médico não teve condições de responder a questão de maneira categórica.

Doutor Nelson Quirino alerta,
“Eles vão lavar as mãos”


O médico Nelson Quirino, que atuou por mais de 25 anos no Instituto Médico Legal de Joinville, alega que para se atuar como médico legista é necessário muita vivência na área. Quirino informa que há uma série de procedimentos a serem tomados e observados em uma necropsia, e que somente um profissional familiarizado com essa atividade poderá detectar em um caso complicado como este. Para Quirino, o caso Gabrielli é muito semelhante a outros já atendidos por ele, ou seja, uma asfixia por afogamento. Ele explica que o diafragma de uma criança vítima de afogamento se comprime de tal forma na agonia, que comprime também os intestinos, fazendo que o organismo, de forma involuntária, comece a expelir fezes, provocando uma dilatação do anus e provocando o relaxamento dos esfíncters (músculos), que por sua vez, após o óbito, não retornam mais a sua normalidade. O médico diz que atribuir a isso uma ruptura anal é um verdadeiro absurdo. “Já atendi um caso onde uma pessoa adulta sofreu atentado violento ao pudor e morreu devido a uma hemorragia anal. Agora, imagine uma criança”, pondera o legista. Ao analisar as fotos, ele afirma que Gabrielli possuía apenas uma fissura superficial na região anal, que segundo ele pode ser facilmente percebida olhando com uma lente de aumento as fotos do exame cadavérico. Quirino não poupa crítica ao IGP de Joinville: “Eles não estão conseguindo administrar uma viatura para recolher os corpos. Faz mais de três meses que a viatura está no conserto, nos deixando a mercê das funerarias”. O médico também deixa escapar seu ponto de vista sobre a postura do delegado e do promotor encarregado do caso, “Eles lavaram as mãos e jogarão o pedreiro Oscar Gonçalves do Rosário ao júri popular”, lamenta. Quirino irá depor no próximo dia 23, convocado pela defesa de Oscar, em substituição ao pedreiro Deivid Soares, que não foi localizado.

Mesmo sem estar presente e sem ver
o corpo médico assina laudo


As declarações atribuídas à coordenadora do Núcleo Mesoregional do Instituto Geral de Perícias (IGP), Ruth de Souza Corrêa, sobre o médico Nelson Quirino, publicadas no dia 10 de agosto no jornal A Notícia, são contestados pela própria coordenadora, que diz inclusive ter enviado ao jornal uma nota de esclarecimento. Segundo ela, o médico Nelson Quirino não foi chamado para realizar a necropsia porque estava a disposição da Secretaria da Saúde por questões administrativas e funcionais. Apesar da coordenadora ressaltar que o IGP conta hoje apenas com um excelente material humano, ela admite que no dia da morte de Gabrielli não havia médico legista em Joinville. Na época, o IGP contava com quatro médicos cedidos pela Secretaria de Saúde. Um deles era Hercílio Fronza, que estava em São Paulo com a esposa hospitalizada; o outro era Marcelo Santos, mas estava em Curitiba; Edio Jabor estava de folga e não foi localizado; e o que estava de plantão era Francisco Veira Rodrigues, mas que também não foi encontrado (estranhamente, ele assinou o laudo). Apesar dos 25 anos de experiência, Quirino, então afastado, não foi chamado. Assim, o delegado regional Dirceu Silveira Junior e a coordenadora nomearam para fazer o laudo cadavérico da menina o médico João Domingos Koerich, apesar dele não pertencer aos quadros do órgão e nunca ter feito antes um laudo cadavérico semelhante.

A necropsia foi acompanhada por Ruth e o técnico Edson Luiz da Silva. Porém, ela confirma que o laudo emitido saiu com duas assinaturas, uma do médico João Domingos Koerich e outra do médico ausente Francisco Vieira Rodrigues.

Esse é o Instituto Geral de Perícias

A dor de quem procura uma delegacia para providenciar um exame de corpo delito, ou ainda, na situação indescritível de ter que reconhecer o corpo de algum parente ou amigo mistura-se a uma cena deplorável, de abandono e má utilização do bem público. Espalhados e amontoados no acesso de entrada e nos canteiros que um dia abrigaram um jardim, dezenas de carcaças de automóveis deteriorados pela ação do tempo, juntamente com salas que deveriam ser delegacias, mas que na verdade, servem apenas de deposito de motocicletas apreendidas, desenham o descaso da segurança pública da maior cidade do estado.

Completando esse cenário surreal, o mato e as paredes tomadas pelo mofo dão um toque final compondo o Complexo de Segurança que hoje abriga a Central de Polícia e a medicina forense em Joinville. Essa é a descrição do endereço onde se localiza o Instituto Geral de Perícias, órgão do governo estadual e ligado a Secretaria de Segurança Pública que deveria auxiliar na elucidação de crimes. Inaugurado há 12 anos e totalmente desaparelhado, sua aparência se assemelha a de um cadáver em estado de putrefação.

Um crime que não se sustenta na provas

Foi nessa situação, sem viatura para recolher vitimas fatais de acidentes ou homicídios, sem equipamentos e sem médicos treinados em medicina forense, que o Instituto Geral de Perícias (IGP) realizou a proeza de emitir um laudo cadavérico usado para sustentar a culpabilidade do pedreiro Oscar Gonçalves do Rosário. O caso teve repercussão nacional, a exemplo do que aconteceu com a onda de estupros ocorrida em 2001 com o Maníaco da Bicicleta, ocasião em que investigações desastrosas quase levaram a prisão de mais um inocente.

Oscar é acusado de ter violentado, asfixiado e arremessado a pequena Gabrielli Cristina Eichholz, de apenas 1 ano e 6 meses de idade, em uma pia batismal de uma Igreja Adventista do Sétimo Dia. O suposto crime ocorreu no dia 03 de março de 2007, no bairro aventureiro, em Joinville. A investigação sumária da polícia diz que Oscar confessou o crime, no entanto, o pedreiro afirma ter confessado o assassinato para se livrar dos “tapas” e da intimidação que sofreu no interrogatório.

 
Edição Digital
 
  EDITORIAIS
  EDIÇÃO DIGITAL
JOINVILLE
EDITORIAL
ESPORTE
COMUNIDADE 
POLÍTICA
GERAL
  SEGURANÇA 
  COLUNISTAS
ANTÔNIO ANACLETO
DRÁUZIO VARELLA
  DUDU ALVES
JUCA MIGUEL
GUGA MENEGHIM
  FALE CONOSCO
REDAÇÃO
DEPTO. COMERCIAL
ASSINATURA
SEÇÃO DE CARTAS

 

 

 

 

 

 

Webdesign
Cristiano Alves