Livro Bomba
 
12.06.2008
 

Para o advogado Ricardo Gallotti, a prisão do dono da revista Metrópole, Ivonei da Silva, foi pura armação. Nei Silva foi chamado para receber o pagamento de uma dívida e foi preso em flagrante, no dia 2 de junho no Hotel Cambirela, em Florianópolis. Ele teria sido flagrado quando recebia R$ 40 mil do ex-secretário de Planejamento e atual presidente da Renaux View, Armando Hess de Souza, que agia como interlocutor do governo. Até então, o ex-secretário de Luiz Henrique dizia que não havia negócio algum com Nei Silva. Mas, nesta semana, Hess admitiu ter contratado a revista. O inquérito da prisão está nas mãos do delegado da Deic Renato Hendges.

O advogado Ricardo Galotti admite que não havia contrato formal pela prestação de serviço,mas insistiu que seu cliente tem como provar o negócio com comprovantes de pagamentos feitos pelo governo e gravações telefônicas em que seu cliente acerta detalhes de como faria para receber os cerca de R$ 500 mil do contrato. Foi pago cerca de R$ 150 mil, dinheiro tirado de empresas do governo, como Badesc, prefeituras e empresários afinados com o governador.

Nei Silva foi contratado antes das eleições de 2006 para colocar sua revista, a Metrópole, a disposição da máquina eleitoral de Luiz Henrique. Mas, tão logo saiu o resultado das urnas, Nei Silva reclama que ficou na mão e sua empresa acabou falindo quando o TRE lhe aplicou duas multas por suposta propaganda eleitoral em favor de LHS. E foi nesta oportunidade que Nei Silva escreveu o livro contando os bastidores das negociações com o governo, tudo devidamente gravado.

O acordo com o governo, diz, previa a publicação de três revistas, instalação de 100 outdoors pelo interior de Santa Catarina e a realização de pesquisas de intenção de voto para consulta do governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), tudo ao custo de R$ 500 mil. Mas, apenas parte do dinheiro lhe caiu nas mãos.

Explosivo

Armando Hess de Souza foi secretário de Estado de Planejamento Orçamento e Gestão. Em 2006, fora do governo, assumiu a presidência da Têxtil Renaux View.

Falido e sem poder para cobrar a conta, Nei Silva começou a gravar e documentar seus encontros com membros do governo. Numa reunião com Armando Hess, em janeiro passado, ele foi alertado, quase em tom de ameaça, que sua sorte estaria traçada, caso insistisse na cobrança e levasse a publico sua relação com o governo:

“Quero te dizer o seguinte... Vamos que isso estoure, vá pra mídia, obviamente vai criar um problema para o Governo, eu não acredito que tenha uma conseqüência de cassação do Governador ... Nessa situação o que vai acontecer? Vais também criar um desgaste, isso vai virar estresse para ti, imagina ai a coisa vai para cima de ti, isso pode ter uma sucumbência”, disse Hess, e continuou:

“Sucumbência, isso vai te arrombar pra tua vida inteira, desgaste 20, 30 anos pra resolver a situação”, explicou Armando Hess, conforme está relatado na página 226 do livro.

E Armando ainda avisou: “...tu tens a perder primeiro, piorar milhes de vezes a qualidade da tua vida de estresse. A mídia vai cair em cima de ti, o processo que vais ter que responder, que o outro vai se defender, e a forma de se defender e atacando de alguma maneira, isso vai criar um inferno dentro de sua vida”, vaticinou, praticamente prevendo a prisão de Nei Silva.

Quem é Armando Hess de Souza


O empresário Armando Cesar Hess assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico em 2003, mas logo foi alçado à pasta de Planejamento, Orçamento e Gestão do Estado. Homem de confiança do governador, Hess saiu do governo desgastado em janeiro de 2006 depois de suspeitas de privilegiar a empresa Práxis, de relação estreita com a então diretora-geral da Secretaria de Planejamento, Anita Pires.

Desde 2003, pelo menos 13 eventos, entre eles os seminários de Descentralização e até reunião do colegiado foram realizados pela empresa. A Praxis mantinha sede no mesmo endereço de duas empresas da ex-diretora de Planejamento, a Pires e Associados Assessoria e a Pires e Associados Eventos e Congressos. As três empresas, além de outra do filho de Anita, compartilham a mesma sala no segundo andar de um edifício no bairro no Estreito, na Capital.

Pivô do livro “A Descentralização no Banco dos Réus”, que traz revelações comprometedoras sobre irregularidades em campanhas publicitárias para a reeleição do governador Luiz Henrique ao governo do Estado, Hess confessa que houve uma articulação entre a revista e o governo e que ele, na qualidade de secretário, estimulou os secretários regionais a receberem o “empresário” para viabilizar as edições da revista.

Hess foi um dos responsáveis pela implantação da reforma administrativa do governo Luiz Henrique, cuja marca principal são as secretarias regionais, espalhadas pelo Estado.

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Trechos de um supostos diálogos entre o secretário de Estado da Coordenação e Articulação, Ivo Carminatti e o empresário Nei Silva que consta no livro “Descentralização no Banco dos Réus”