Violência contra mulher
 
19.06.2008
Delegacia da Mulher registra
mais de 400 atendimentos mês
 
Windson Prado
 

O olhar cabisbaixo demonstra aflição e tristeza. As mãos geladas se apertavam num sinal de ansiedade e nervosismo. O cabelo cumprido colocado sobre o rosto e a blusa cacharrel eram apenas mais uma tentativa de esconder as marcas dos hematomas carimbados sobre o corpo. A sala de espera da Delegacia da Mulher estava cheia, mas muito silenciosa.

Todas as mulheres procuravam, talvez, respostas para o motivo da agressão. Nossa personagem – que prefere o anonimato – continuava em silêncio, olhando para o chão, e às vezes para três pequenos vasinhos que estavam sobre a televisão e tentavam quase que inutilmente alegrar o ambiente.

Depois de uma espera de aproximadamente 20 minutos, a funcionária da delegacia chama nossa personagem. Elas conversam por quase meia hora. Pelo vidro era possível notar que os olhos lacrimejavam à medida que ia relatando a agressão. Depois do depoimento nos aproximamos da vítima. Ela tem 25 anos, e vamos chamá-la de Maria. Tímida e humilde, ela aceitou contar sua história, sob a promessa de que não iríamos divulgar seu verdadeiro nome e sua imagem.

“Me casei com 17 anos. Meu marido era bem mais velho do que eu, na época ele tinha 31 anos. No começo sempre nos demos muito bem, e ele nunca demonstrava ser violento. Tivemos dois filhos. Com o tempo ele começou a beber e percebi que estava mudando de comportamento. Aos poucos ele foi chegando em casa de madrugada. Bêbado ele começava a me xingar. Até que em um desses dias ele me bateu. Foram tapas e socos. Me senti um lixo. Mas o que mais doía era a humilhação”, conta Maria.

“No outro dia, acordei disposta a pôr um ponto final naquela relação. E assim foi. Ficamos afastados dois meses, mas ele me procurou disse que tinha mudado e decidi dar mais uma chance. No começo desse ano, ele ficou desempregado, voltou a beber, e numa dessas voltas para casa, muito alcoolizado, me espancou novamente. Isso faz duas semanas. Agora ele continua a me ameaçar, diz que vai tirar meus filhos de mim, tenho medo, por isso vim denunciar o caso na delegacia”, finaliza Maria.

Violência doméstica é o caso mais comum

A história de Maria é apenas mais uma diante da imensidão de boletins de ocorrência que são feitos mensalmente na Delegacia da Mulher de Joinville. Mesmo com um quadro de funcionários muito reduzido, a delegacia tem se esforçado ao máximo para atender a grande demanda. O aumento na procura pelos serviços tem crescido muito. Na maioria, vítimas da violência doméstica, resultando numa média de 400 atendimentos por mês.

Entre os boletins estão desde ameaças e agressões leves, a tentativa de estupro. São casos como o de Rosana de Oliveira, de 23 anos. Ela foi vítima de agressão no primeiro casamento. Hoje está grávida do terceiro filho e sofre com as ameaças da mãe do atual namorado. “Eu apanhei três vezes do meu ex-marido. Sempre por motivos bobos. Ele não gostava que eu trabalhasse. Quando chegava do meu emprego ele me batia. Uma vez ele me agrediu com diversos socos e pontapés, e chegou até a jogar uma panela de água fervente sobre mim, mas acabou atingindo meu filho. Então viemos parar na delegacia e nos separamos. Agora eu estou sofrendo com a mãe do meu namorado. Desde o começo da gravidez, ela fica me ameaçando. Diz que assim que a criança nascer ela vai matar o bebê. Ontem, ela tentou me agredir. Por isso, vim registrar queixa”, relata.

Ela enfatiza que é muito importante fazer a denúncia. “É uma maneira da gente se sentir segura e resolver nossos problemas. Porque nem tudo se resolve com as próprias mãos. Por isso prefiro vir aqui e junto da lei garantir meus direitos e impedir que a minha sogra entre na maternidade, quando eu der à luz”, desabafa.

Problema atinge todas as classes sociais

O aumento no movimento da delegacia, que fica no Bucarein na esquina das ruas São Paulo, com Plácido de Oliveira, tem chamado a atenção até dos funcionários. Segundo eles, existem dias em que eles são obrigados a fecharem a delegacia para ir atender ocorrências na rua. Mesmo assim o trabalho é intenso. De acordo com a delegada Marilisa Boehm, o crescimento na procura pelos serviços da delegacia se dá por dois motivos. “De um lado temos que ressaltar que as pessoas estão se conscientizando da importância de denunciar a agressão. De outro, temos que levar em conta que a população da cidade aumentou significativamente nos últimos anos. Hoje se sabe que temos mais de 600 mil pessoas residindo na cidade. Mais pessoas representam mais consumo, mais impostos, e mais violência. Para se ter uma idéia, em uma única semana do mês de maio, foram registrados oito boletins de ocorrências relatando estupro”, justifica.

Segundo a delegada, não existe um perfil típico da vitima de violência contra a mulher. “Quando comecei a exercer meu trabalho como policial, em 1992 a maioria das mulheres que procuravam a delegacia, para prestar queixa de agressão, eram pessoas da classe média baixa, e a com idade mais avançada, acima dos 40 anos. Hoje, percebemos que essa realidade mudou. A maioria de nossas vitimas tem de 20 a 40 anos, e mais, elas são das mais diferentes classes sociais”, complementa.