O olhar
cabisbaixo demonstra aflição e tristeza. As mãos
geladas se apertavam num sinal de ansiedade e nervosismo. O cabelo
cumprido colocado sobre o rosto e a blusa cacharrel eram apenas
mais uma tentativa de esconder as marcas dos hematomas carimbados
sobre o corpo. A sala de espera da Delegacia da Mulher estava
cheia, mas muito silenciosa.
Todas as mulheres procuravam, talvez, respostas para o motivo
da agressão. Nossa personagem – que prefere o anonimato
– continuava em silêncio, olhando para o chão,
e às vezes para três pequenos vasinhos que estavam
sobre a televisão e tentavam quase que inutilmente alegrar
o ambiente.
Depois de uma espera de aproximadamente 20 minutos, a funcionária
da delegacia chama nossa personagem. Elas conversam por quase
meia hora. Pelo vidro era possível notar que os olhos lacrimejavam
à medida que ia relatando a agressão. Depois do
depoimento nos aproximamos da vítima. Ela tem 25 anos,
e vamos chamá-la de Maria. Tímida e humilde, ela
aceitou contar sua história, sob a promessa de que não
iríamos divulgar seu verdadeiro nome e sua imagem.
“Me casei com 17 anos. Meu marido era bem mais velho do
que eu, na época ele tinha 31 anos. No começo sempre
nos demos muito bem, e ele nunca demonstrava ser violento. Tivemos
dois filhos. Com o tempo ele começou a beber e percebi
que estava mudando de comportamento. Aos poucos ele foi chegando
em casa de madrugada. Bêbado ele começava a me xingar.
Até que em um desses dias ele me bateu. Foram tapas e socos.
Me senti um lixo. Mas o que mais doía era a humilhação”,
conta Maria.
“No outro dia, acordei disposta a pôr um ponto final
naquela relação. E assim foi. Ficamos afastados
dois meses, mas ele me procurou disse que tinha mudado e decidi
dar mais uma chance. No começo desse ano, ele ficou desempregado,
voltou a beber, e numa dessas voltas para casa, muito alcoolizado,
me espancou novamente. Isso faz duas semanas. Agora ele continua
a me ameaçar, diz que vai tirar meus filhos de mim, tenho
medo, por isso vim denunciar o caso na delegacia”, finaliza
Maria.
Violência doméstica é
o caso mais comum
A história de Maria é apenas mais uma diante da
imensidão de boletins de ocorrência que são
feitos mensalmente na Delegacia da Mulher de Joinville. Mesmo
com um quadro de funcionários muito reduzido, a delegacia
tem se esforçado ao máximo para atender a grande
demanda. O aumento na procura pelos serviços tem crescido
muito. Na maioria, vítimas da violência doméstica,
resultando numa média de 400 atendimentos por mês.
Entre os boletins estão desde ameaças e agressões
leves, a tentativa de estupro. São casos como o de Rosana
de Oliveira, de 23 anos. Ela foi vítima de agressão
no primeiro casamento. Hoje está grávida do terceiro
filho e sofre com as ameaças da mãe do atual namorado.
“Eu apanhei três vezes do meu ex-marido. Sempre por
motivos bobos. Ele não gostava que eu trabalhasse. Quando
chegava do meu emprego ele me batia. Uma vez ele me agrediu com
diversos socos e pontapés, e chegou até a jogar
uma panela de água fervente sobre mim, mas acabou atingindo
meu filho. Então viemos parar na delegacia e nos separamos.
Agora eu estou sofrendo com a mãe do meu namorado. Desde
o começo da gravidez, ela fica me ameaçando. Diz
que assim que a criança nascer ela vai matar o bebê.
Ontem, ela tentou me agredir. Por isso, vim registrar queixa”,
relata.
Ela enfatiza que é muito importante fazer a denúncia.
“É uma maneira da gente se sentir segura e resolver
nossos problemas. Porque nem tudo se resolve com as próprias
mãos. Por isso prefiro vir aqui e junto da lei garantir
meus direitos e impedir que a minha sogra entre na maternidade,
quando eu der à luz”, desabafa.
Problema atinge todas as classes sociais
O aumento no movimento da delegacia, que fica no Bucarein na esquina
das ruas São Paulo, com Plácido de Oliveira, tem
chamado a atenção até dos funcionários.
Segundo eles, existem dias em que eles são obrigados a
fecharem a delegacia para ir atender ocorrências na rua.
Mesmo assim o trabalho é intenso. De acordo com a delegada
Marilisa Boehm, o crescimento na procura pelos serviços
da delegacia se dá por dois motivos. “De um lado
temos que ressaltar que as pessoas estão se conscientizando
da importância de denunciar a agressão. De outro,
temos que levar em conta que a população da cidade
aumentou significativamente nos últimos anos. Hoje se sabe
que temos mais de 600 mil pessoas residindo na cidade. Mais pessoas
representam mais consumo, mais impostos, e mais violência.
Para se ter uma idéia, em uma única semana do mês
de maio, foram registrados oito boletins de ocorrências
relatando estupro”, justifica.
Segundo a delegada, não existe um perfil típico
da vitima de violência contra a mulher. “Quando comecei
a exercer meu trabalho como policial, em 1992 a maioria das mulheres
que procuravam a delegacia, para prestar queixa de agressão,
eram pessoas da classe média baixa, e a com idade mais
avançada, acima dos 40 anos. Hoje, percebemos que essa
realidade mudou. A maioria de nossas vitimas tem de 20 a 40 anos,
e mais, elas são das mais diferentes classes sociais”,
complementa.
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