Escândalo da Mansão
 
4.07.2008
Testemunha teria recebido oferta de dinheiro para sumir da cidade
 
Rogério Giessel
 

O funcionário público Antonio Fernando Nandi revelou a reportagem da Gazeta que após a publicação das denúncias de desvio de móveis doados à creches para o comitê de campanha do candidato do DEM, Darci de Matos, ele foi procurado por uma pessoa que se identificou como Iran, funcionário da Vigilância Sanitária. Segundo ele, Iran se apresentou como intermediário de Darci e do prefeito Marco Tebaldi e ofereceu dinheiro para que ele deixasse a cidade.

Nesta semana, Antonio Nandi não atendia o telefone e nem retornava as ligações. Somente depois de muito tempo ele voltou a manter contato. “Dormi em um hotel, estava com medo de voltar pra casa. Estava com medo”. Diz se referindo a pressão que vem sofrendo. Seu temor aumentou quando na noite do dia 1º deste mês foi abordado na Rua Jerônimo Coelho, no Centro, por quatro homens que desceram de um Vectra com placa de São Paulo.

Nandi relata que eles o empurraram contra um muro, revistaram seus bolsos, mas devolveram a carteira com seus documentos pessoais. Em sua opinião, os homens com aparência de seguranças, usando ternos, procuravam algum documento, algo comprometedor. Tomaram seu celular e saíram ameaçando: “Você sabe o que está acontecendo. A gente ta bem pertinho, vê o que vai fazer, você pode se arrepender”. Temendo pela própria vida, Antonio Nandi resolveu contar tudo que sabia.

Antônio Fernando Nandi declarou tudo sabendo que estava sendo gravado e se comprometeu em repetir tudo para o Ministério Público.

Prefeito sabia do desvio

O prefeito Marco Antonio Tebaldi (PSDB) sabia da operação que resultou na entrega de móveis da Prefeitura na Mansão-Comitê do candidato Darci de Matos. O assunto foi tratado em um almoço ocorrido no diretório do PSDB, no dia 23 de junho, em que estavam presentes Marco Tebaldi, Antonio Riva (Presidente da Amae), Cromacio José da Rosa, (Gerente da Secretaria de Saúde), Carlos Roberto Caetano (Presidente do PSDB e chefe de gabinete do prefeito), Wlakiria Lídia Lennert, (secretária executiva do PSDB), e os vereadores do partido, Marco Aurélio Marcucci, Mauricio Peixer e Luiz Bini. Além de se preocupar em dar mais requinte e funcionalidade ao comitê-mansão de Darci, a reunião/almoço tinha como objetivo tentar convencer os vereadores tucanos a aceitar uma coligação com o partido do pastor Giovanni Gonçalves (PTB) tendo este como candidato.

Essa revelação é de Antonio Fernandes Nandi, o homem que denunciou o desvio de móveis da Prefeitura para o comitê de Darci de Matos. Nandi participou da reunião a convite do vereador Luiz Bini e de Antonio Riva: “Eu encontrei eles no Mercado Municipal. A gente tava batendo um papo e eles me convidaram para almoçar”, explicou. Acomodado dentro do ninho tucano, Antonio Nandi, ouviu Carlos Caetano, na frente de todos os presentes, questionar a gerente da Unidade Administrativa da Secretária de Educação Wlakiria Lennert quando os móveis seriam entregues para Darci. Intrigado com o que ouviu, Antonio Nandi saiu do almoço e foi até o comitê eleitoral de Darci de Matos. Permaneceu lá até o final do dia e nada constatou. Na manhã do dia seguinte, dia 22, ele foi novamente até o local, e por volta das 10 horas testemunhou a chegada dos móveis em um caminhão contratado pela Prefeitura.

Móveis foram doados à creches municipais

Na semana passada, dia 24, em plena luz do dia, funcionários públicos, usando um veículo locado pelo município, retiraram os móveis (que deveriam estar equipando creches e escolas do município) do almoxarifado da Secretaria, na rua Max Colin, antiga sede da Prefeitura, e descarregaram tudo no comitê eleitoral de Darci de Matos. Mesas, cadeiras e outras peças seriam usadas para equipar e decorar o belo comitê, proporcionando um layout moderno e mais funcional. Tudo à custa do dinheiro público. O
motorista Mauri, e mais dois funcionários da Prefeitura, devidamente uniformizados, deixaram o almoxarifado a bordo do caminhão Mercedes Benz, azul, placas LYC 3414, veículo contratado pela municipalidade e rumaram para o endereço do “comitê-mansão” na rua Henrique Mayer. O motorista, o guarda do depósito e a responsável pelo almoxarifado confirmaram a operação.

Indignação de quem fez a doação

Pelo menos parte dos móveis que acabaram no “comitê-mansão” foram doados pela empresa Koentopp Veículos. A tradicional revenda de veículos destinou as escrivaninhas e cadeiras para creches do município, tudo devidamente registrado como doação ao município. O empresário Ivo Koentopp, ao saber que os móveis doados para melhorar o nível do ensino público estão servindo como mesa de negociação de campanha eleitoral ficou estarrecido. “Vocês estão brincando comigo. Não é possível.” A indignação do empresário reflete também o sentimento do joinvilense que vê a utilização de uma estrutura que deveria atender a sociedade a serviço do candidato do prefeito. Ivo fez questão de entregar toda a documentação sobre as doações. São declarações de creches mantidas pela prefeitura e agradecimentos do próprio município por sua iniciativa.