Livro-bomba
 
10.07.2008
Nei Silva depõe na Assembléia.
Deputados saem convencidos das negociatas com Luiz Henrique
 
Da Redação
 

Depois de três horas de depoimento do empresário Ivonei da Silva, na tarde da última quarta-feira (9) na Assembléia Legislativa, os deputados da oposição saíram convencidos de que havia, sim, um acordo tácito entre ele e membros do governo do Estado para divulgar as “ações da descentralização”, caracterizando propaganda subliminar em pleno ano eleitoral de 2006, burlando a legislação eleitoral. O convencimento levou os deputados do PP e do PT a oferecerem publicamente “todas as garantias que o Parlamento pode oferecer” para impedir que o empresário sofra qualquer tipo de represália ou constrangimento por parte do governo, pela sua coragem em vir a público e reafirmar tudo o que disse no seu livro “A Descentralização no Banco dos Réus” – onde relata, com minúcias, supostas negociatas entre autoridades estaduais e o setor privado para a publicação de edições da revista enaltecendo a “descentralização” e elogiando as autoridades.

Tranqüilo e sem se contradizer em momento algum, Nei respondeu as perguntas de parlamentares e de jornalistas que lotaram o plenarinho da Assembléia. Ladeado pelos deputados Silvio Dreveck (líder do PP), Joares Ponticelli (vice-líder), Pedro Uczai (líder do PT) e Ivan Naatz (PV), o empresário confirmou que as tratativas para divulgar as “obras” da descentralização começaram em 2005, com a publicação da edição nº 35 da Revista Metrópole “mostrando a ação da diretoria da Casan”. O dinheiro saiu da própria Casan “e de fornecedores” para viabilizar a publicação. Seguiu-se uma edição enfocando o Badesc e foi a partir daí que o então secretário do Planejamento do governo do Estado, Armando Hess , “convocou” Nei para levar adiante um projeto que compreendia a publicação de três edições, outdoors e de “pesquisas não-autorizadas”, uma espécie de “feedback informal que era levado ao governador Luiz Henrique”.

Diante do delegado Renato Hendges, titular da Deic, Nei Silva reafirmou que sua prisão “por extorsão” foi uma armação construída pelo governo e uma “traição” de Armando Hess, no dia em que ele apenas tentava receber parte do que o governo lhe devia pelos serviços prestados: o valor acertado com o governo foi de R$ 500 mil, mas só tinha recebido parte disso (R$ 336 mil). Somando-se o lucro cessante e o que deixou de receber, também, por uma publicação especial destinada ao Sul do Estado (“onde o então vice-governador Eduardo Morteira aparecia 23 vezes”), a dívida do governo para com Nei seria, atualmente, de R$ 1,46 milhão.

Diante do delegado, inclusive, Nei disse que o governo “pressionou” a polícia e que não deixava que ele falasse com a imprensa. “O delegado foi gentil, profissional e amigo, e ele que me abriu esse espaço”, comentou o empresário. Ele revelou ainda que recebeu ameaças, tanto de Hess quanto do ex-titular da Codesc e tesoureiro do PMDB, Içuriti Pereira, denunciando que temia por sua integridade física.

Nei declarou que o secretário da Articulação, Ivo Carminatti, “sonegou a verdade” quando falou que manteve contato apenas uma vez com ele. “Nos encontramos umas seis vezes no próprio Centro Administrativo, além de contato telefônico”, contou o empresário. Carminatti, que sempre negou qualquer contato com o empresário, aliás, foi desmentido também pela gravação de contatos telefônicos entre ele, Hess e Nei, que foi amplamente divulgada pela RBS-TV.

Nei asseverou que está cuidando dos detalhes para a comercialização do livro. “Ele vai para as livrarias e não vou mudar uma vírgula do que está ali. Afinal, a verdade está do meu lado”, enfatizou.

Entenda o caso

Março de 2005
Nei Silva publicaria três revistas, colocaria dezenas de outdoors pelo Estado e faria “pesquisas de opinião”. Pelo serviço, receberia a quantia de R$ 500 mil.

O secretário de Planejamento do Estado, Armando Hess “estimularia” os secretários regionais a abrirem as portas dos empresários fornecedores e amigos do governo para que Nei Silva pudesse faturar.

Além de fornecedores e amigos do governo, a revista Metrópole emitiu notas fiscais de serviço para várias prefeituras e também para o BRDE, Badesc e Codesc, configurando uso do dinheiro público em promoção pessoal.

Junho de 2006 O esquema começou a ruir. Segundo Nei Silva, o então presidente da Codesc (e tesoureiro do PMDB) Içuriti Pereira e o secretário de Comunicação, Derly Anunciação, ordenaram que parasse de “cobrar” as faturas dos “anunciantes” porque era véspera de eleição e não seria legal executar devedores/apoiadores.

Nei acertou que não cobraria mais os empresários. O pagamento seria feito diretamente pelo governo. A primeira parcela (de R$ 40 mil) teria sido paga no diretório do PMDB de Florianópolis. E duas parcelas de R$ 40 mil na empresa Renaux, do ex-secretário Armando Hess de Souza.

Segundo Nei, o Governo já teria pago R$ 336 mil.