Escândalo Metrópole
 
16.07.2008
BOMBA: Encontro em quarto
de hotel selou negociata
 
Danielle Fuchs/Folha de Blumenaul • Gentilmente cedida à Gazeta de Joinville
 

Peça-chave no caso que tomou conta do noticiário estadual, a blumenauense Márgara Hadlich conta com exclusividade ao jornal Folha de Blumenau os detalhes do trabalho que culminou no livro ‘A descentralização no banco do reús’, publicação escrita pelo empresário Ivonei Silva que é alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF) e Estadual.

Ex-funcionária da Revista Metrópole – que tem sede em Blumenau –, a produtora de TV reforça a tese do empresário, confirmando que haveria um contrato informal com o governo do Estado para divulgar a descentralização em Santa Catarina e garante que teria tratado pessoalmente com o governador Luiz Henrique da Silveira sobre reportagens e apoio comercial.

Na entrevista concedida à Folha, Márgara nega o suposto caso amoroso com o chefe do Executivo Estadual, aponta empresários e membros do governo que teriam participado do processo, diz que possui provas e expressa o ressentimento de quem teve a vida revirada por conta de um trabalho desenvolvido por pouco mais de um ano. Segue trechos da entrevista concedida na redação do jornal com a versão da blumenauense, com as devidas edições para dar ordem cronológica aos fatos relatados.

Como tudo começou

“Tudo começou em outubro de 2005. Eu era funcionária da empresa há sete ou oito meses, fazia trabalho de campo e também o comercial. Fazíamos revistas de todo tipo, não só políticas. Aí fui comunicada de que estava em negociação com o Armando Hess (de Souza), secretário de Articulação do governo na época (hoje presidente da Têxtil Renaux View), um projeto sobre a descentralização, que foi apresentado pelo Danilo e pelo Nei, lá no Palácio, na Capital. E o Armando havia se entusiasmado muito. ‘Isso iria divulgar a descentralização no Estado todo, iria descentralizar a informação’, disse o Armando.

O start para o projeto

Em seguida, veio um novo contato do Hess com o Danilo e o Nei, dizendo que era para tocar o projeto que ele já estava enviando e-mails para as secretarias regionais e que nós iríamos ser recebidos para viabilizar o projeto financeiramente. Até então, essa era uma negociação entre o Nei e o Armando. Ele (Armando) era o interlocutor do governo. Aí me passaram várias regiões para visitar.

O “OK” de LHS

“Eu fui a um evento do Hospital Santa Isabel, em Blumenau, (em novembro de 2005) para levar o boneco da primeira revista (nº 40) para o governador aprovar. Ele aprovou um boneco, pessoalmente, o primeiro apenas, que era o piloto.

O encontro em Itá

“Ainda estávamos tendo algumas dificuldades nos contatos. Aí o Nei me pediu que fosse à reunião do colegiado, em Itá, no Hotel Itá Thermas Resort Spa, dia 12 de dezembro de 2005. Cheguei dia 11. O governador chegou bem mais tarde de helicóptero por volta das 17h. Eu aguardava no aeroporto, como todos os jornalistas. Eu esperava com gravador na mão, uma lista dos empresários que haviam ou não entrado no projeto, e o porquê. Há uma foto deste dia no livro.

Entre quatro paredes

O governador sabia do que se tratava. E me disse assim: ‘Márgara, não é o momento de conversar sobre isso agora, tem muita gente aqui, vai no meu apartamento daqui a meia hora’, mostrou a chave, era o nº 415, algo assim. Dei o tempo que ele pediu e subi. Lembro que ao lado do apartamento dele estava o Casildo Maldaner, que me cumprimentou. Eu bati na porta, ele (LHS) me recebeu, tirou tudo da minha mão, e disse: ‘Márgara, me dá o teu cartão, eu prefiro te mandar tudo por escrito porque sou melhor escrevendo que falando’. Eu disse: ‘O senhor é quem sabe’. E ele disse: ‘Mas fala, menina, o que mais você quer de mim’.

“Eu vou resolver isso”

E o governador disse: ‘Tá, e o que você precisa então?’. Eu disse: ‘Preciso do apoio dos secretários regionais. Eles precisam saber que o projeto é de seu conhecimento e do governo. Só isso. Quero que eles me indiquem as empresas e eu vou atrás. Eles têm que saber que o projeto é de interesse do governo, é realmente do governo, e que me indiquem as empresas quando eu chegar na secretaria’. E ele disse: ‘Tá, Márgara, eu vou resolver isso amanhã cedo.

Os Contatos

“A partir da reunião do colegiado, em Itá, as ligações com os secretários regionais ficaram mais intensas. Era muito bem recebida nas secretarias. Os secretários regionais me adoravam.

A primeira revista

“A entrega da primeira publicação fui fazer em uma obra que o governador entregou em uma cidade perto de Massaranduba (São João do Itaperiú). Entreguei para Deus e todo mundo. Eu ia a tudo quanto era obra que ele (LHS) entregava. Ia a pedido do governo para fazer cobertura para a revista”.

O problema dos outdoors

Mandei espalhar os outdoors pelo Estado todo. Na reunião de Timbó (no Hotel Timbó Park), onde havia, na entrada, um dos outdoors, todos me cumprimentaram pelo outdoor. Secretários, deputados, o Gilmar Knaesel. Todo mundo. E o governador me olhou, apontou para o outdoor e fez assim (sinal de positivo), por causa do outdoor”.

A virada

“Aí passaram duas semanas, acho, e o PP entrou com tudo. Por causa dos outdoors. Veio em cima do governador por propaganda irregular. Depois desse processo do Amin (Esperidião, ex-governador) todos começaram a se esquivar. Tiveram um posicionamento como se não me conhecessem mais. Uma coisa brusca. Do dia pra noite.

A casa caiu

Com tudo feito. E eles mandaram cortar os contatos. Não sei bem como foi isso, mas senti os efeitos. Aí começaram a cancelar contratos. Ao Otaviano Zandonai, que estava em Itá, fui apresentada pelo Casildo Maldaner. Ele assinou a autorização para a revista. Fez o anúncio. Pagou depois da publicação. Foi R$ 15 mil, R$ 12 mil em dinheiro e R$ 3 mil em permuta no hotel de Itá, onde ele é sócio. A denúncia do PP estava rolando. Aí ele falou com alguém do governo e me ligou cancelando tudo e me xingando.

De heroina a vilã

Quiseram me transformar em uma bandida. Queriam se defender, atacando. O advogado dele ligou dizendo que iria me processar. Nunca o fez. Aí a coisa desandou. Quem tinha que pagar não pagou mais. Quem disse que iria fechar não fechou mais, e nada mais andou. Tem cheque que foi cancelado. Eles não foram inteligentes desde o início neste processo. Todo mundo sabia de tudo. Era uma coisa muito ampla. É lógico que iria aparecer alguma coisa. Por que negar?”

Repercussão na mídia

O acordado foi cumprido. Ouço o mantra na imprensa ‘Isso é caso de polícia’. Ou ‘Não tinha contrato’. Claro que não. Ninguém é idiota. Para irregularidade não se faz contrato. Não precisa ser especialista pra saber que algo desse tipo não poderia ser feito naquela época. E ponto!”.

“Não sei se o Nei foi ameaçado e teve a casa arrombada, ele fala que sim. Eu fui ameaçada por telefone, por uma advogada que se disse do Luiz Henrique, uma tal de Andréia. Ela me ligou. Ela disse que eu agia de má-fé. Disse que tomaria as medidas cabíveis, pois eu estaria prejudicando o governador. Nunca entrou com o processo”.

Suposto caso com LHS

“Não li o livro. Questionei o Nei sobre essa história de ‘caso’, que saiu na mídia e foi sugerido no livro. Ele disse que não falou em relacionamento sexual. Ele disse: ‘Falei que havia uma certa preferência do governador por você, como repórter. Ou será que ele trata todos os jornalistas como tratava você? Ele até te ligava!’. Esse caso nunca ocorreu. O governado só me tratava bem. Nada mais! Quando o encontrei em Itá, comentei que conhecia a filha dele, de Joinville. A Márcia. No lançamento do DVD dela, na Casa Rosada, eu estive cobrindo. Ele me convidou. E também fui na posse do Abreu (Pedro Manoel, desembargador), do TJ, fiz uma página social lá para a revista. Para você ver. Todo mundo sabe do projeto.”

 
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