14 de agosto próximo é a data que marcará a história jurídica de Joinville. Passados pouco mais de um ano e meio, desde a morte da menina Gabrielli Cristina Eichholz, de apenas 1 ano e seis meses, e da obscura prisão do pedreiro Oscar Gonçalves do Rosário, finalmente o desfecho de um caso polêmico e permeado de mistério acontecerá. Muitas incertezas, dúvidas, contradições e indignações surgiram sobre a morte. Prematuramente alardeado pela polícia como um crime de estupro e com requintes de crueldade, que aliado ao fato de ter sido cometido em plena manhã de sábado, no interior de uma igreja adventista, fez o caso ganhar as manchetes dos principais jornais do país. Gabrielli morreu no dia 3 de março de 2007, minutos depois de ser encontrada agonizando em uma pia batismal de uma igreja Adventista do Sétimo Dia, localizada no Jardim Iririú, em Joinville. Ainda com vida, ela deu entrada no pronto-socorro do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt, porém, depois de várias tentativas de reanimar a menina, ela não resistiu e morreu. Gabrielli, havia sido levada até um culto na igreja Adventista, por Márcia Machado, 21 anos, e o namorado Wilian, um menor de 17 anos. Márcia é prima da mãe de Gabrielli.
Os primeiros erros
No dia 7 de março daquele ano, o delegado-chefe da polícia civil de Santa Catarina, Mauricio Eskudlark, esteve em Joinville, e em uma atitude precipitada e sem fundamentos, apontou como principal suspeito do possível crime, um menor, de 17 anos, namorado de Márcia Machado, prima de Andreia Pereira, mãe de Gabrielli. A declaração de Mauricio abalou violentamente o estado psicológico do menor. No dia seguinte, Mauricio Eskudlark anuncia um exame de DNA com o material colhido no corpo da menina que jamais seria realizado. Com a imprensa em dúvida, e a família de Gabrielli descontente com a declaração, Eskudlark voltou para a capital catarinense e não se pronunciou mais sobre o assunto.
A prisão
Na noite chuvosa do dia 12 de março do ano passado, exatamente 10 dias depois da morte de Gabrielli, nos fundos da Delegacia Regional de Joinville, dezenas de jornalistas e fotógrafos se acotovelavam aguardando a vinda daquele que seria o responsável pelo crime que chocou a cidade. Em um verdadeiro show da polícia, muitas viaturas chegaram ao local vindas de Canoinhas, cidade em que o suspeito foi preso. O que deveria ser uma prestação de contas para a sociedade no dia seguinte, se tornou um mar de dúvidas. Naquela noite, o delegado regional, Dirceu Silveira Junior, diferentemente do que acontece nesses casos, escondeu o suspeito da imprensa, não permitindo inclusive que fossem feitas fotografias e imagens do detido. Até um policial encapuzado desceu algemado da viatura para confundir os jornalistas. Em entrevista coletiva na mesma noite, o delegado responsável pelo caso, Rodrigo Bueno Gusso, declarou que haviam prendido o servente de pedreiro Oscar Gonçalves do Rosário, e que o mesmo era réu confesso. Gusso também confirmou ter havido um crime sexual. “Sim! Houve o abuso sexual, uma violência sexual, uma agressão física e conseqüentemente a morte da menina”, afirmou o delegado. Essa fala também foi confirmada pelo delegado regional Dirceu Silveira Junior, que alegou estar se baseando na confissão e no laudo cadavérico. Entretanto, dias depois, Oscar voltou atrás e disse ter sido coagido através de tapas a confessar o crime. E complicando ainda mais a situação da polícia, seis meses depois, o médico encarregado da necropsia, João Domingos Koerich, quebra o silêncio e declara textualmente: “Não houve estupro e nem atentado violento ao pudor”, contrariando todas as declarações prestadas pela polícia até agora.
O advogado que acompanhou a suposta confissão
Demonstrando pouquíssimo conhecimento sobre o caso, o advogado diz que apenas pode falar do que presenciou naquele dia, não sabendo nem mesmo o nome dos delegados que tomaram o depoimento. Refere-se a eles como o moreno de cabelos escuros (Dirceu Silveira Junior) e o alemão (Rodrigo Bueno Gusso). Oscar foi preso por volta das 9 horas da manhã, e Diderot, foi chamado apenas às 13 horas. “Até às 13 horas eu nem sabia que o Oscar existia. Não se sabe o que aconteceu nesse espaço de tempo, pelo menos eu não sei”, disparou o advogado. Um fato também chamou a atenção de Diderot: o estado em que encontrava Oscar. Segundo ele, o servente parecia não ter a menor noção do que estava acontecendo ali. “Eu já acompanhei muitos depoimentos e conheço os “malacos”. Mas, aquele rapaz não tinha a menor noção do que estava falando”, afirmou. Durante a entrevista, ele lembrou várias vezes da ingenuidade de Oscar. “Se eu fosse o advogado dele (hoje), pediria um exame de sanidade mental devido ao seu estado”, justificou.
Reconstituição desastrosa
Na manhã de terça-feira, dia 13, em uma reconstituição tumultuada e realizada às pressas, e em que houve até uma tentativa de suicídio de uma agente de trânsito da Conurb, mais imprecisões aconteceram. No dia da morte da menina, acontecia na igreja um culto de inauguração do templo. Mais de 200 pessoas estavam presentes no local, e o pátio onde supostamente estaria Gabrielli, estava repleto de automóveis estacionados, além de pessoas que cuidavam dos veículos. Mas, nada disso foi levado em conta na reconstituição que deveria se aproximar ao máximo da realidade. Nas imagens feitas por uma emissora de televisão, podia se notar o pedreiro totalmente desorientado nas dependências da igreja e sendo constantemente conduzido por policiais aos locais onde deveria se dirigir, uma ridícula simulação de masturbação observada com escárnio por juiz, promotor e policiais completaram a reconstituição. Naquela manhã, uma tentativa de suicídio ajudou ainda mais na imperfeição da reconstituição. A agente de trânsito, Evelise Colin Holz, avançou sobre o coldre de um policial civil e lhe tomou a arma, para em seguida desferir um disparo contra o próprio peito. Evelise foi socorrida e sobreviveu.
O álibi
Outra situação que depõe a favor de Oscar é seu álibi para a hora do crime. Segundo ele, por volta das 9 horas e 30 minutos, estava em um telefone público realizando uma ligação para sua mãe que mora no município de Canoinhas, Planalto Norte de Santa Catarina. A distância do referido telefone até a igreja onde a menina foi encontrada agonizando, é de aproximadamente 2,5 km. A justiça solicitou à Brasil Telecom a quebra de sigilo do telefone público utilizado por Oscar. Após esse procedimento, a companhia telefônica constatou que às 9h horas e 22 minutos houve uma ligação para o telefone celular de sua mãe, com uma duração aproximada de 2 minutos. Gabrielli Cristina Eichholz deu entrada no Hospital Regional Hans Dieter Schmidt às 10 horas e 5 minutos do dia 3 de março, portanto, não haveria tempo hábil para Oscar Gonçalves de o Rosário cometer o crime.
Versão de quem estava na igreja
Rosana Paterno Moreira, uma fiel da igreja, e que não mora em Joinville, mas estava no templo naquele dia, contou a Gazeta de Joinville o que viu naquele dia. Segundo ela, seria praticamente impossível alguém adentrar no local praticamente lotado, cometer um crime bárbaro como o que a polícia alega que Oscar Gonçalves do Rosário cometeu, e sair sem ser percebido. Outro detalhe bastante revelador, é o fato de que onde Rosana e mais de uma dezena de pessoas estavam na igreja, poderiam, sem dificuldade alguma avistar quem se aproximasse da pia batismal.
O que disse a médica que atendeu Gabrielli
A médica pediatra Lusinete Soares relatou os procedimentos tomados para salvar Gabrielli. “Já atendi muito afogamento, e parecia ser mais um. A menina chegou com os cabelos e as roupas molhadas, com um vestidinho jeans, camiseta e fralda. Ela não tinha calcinha, mas a fralda estava bem colocada. Ela estava hipotérmica (fria), sem batimentos e sem respiração”, relatou a médica. Foi preciso tirar a roupa para aquecê-la e depois entubar. Foi quando notei um forte cheiro de fezes. Tirei a fralda e as fezes saíam sem parar. A fralda não estava molhada como a roupa, estava seca, limpei a menina, joguei a fralda no lixo e coloquei outra. Tentamos reanimá-la por 45 minutos”, disse. O ânus continuava dilatado, não havia sangue, nem fissuras e nem vermelhidão. Ela também sustentou que não havia nas roupas ou na menina qualquer indício de esperma ou algo parecido.
A versão dos legistas
Com a declaração do médico que realizou a autópsia, João Domingos Koerich, que diz que não houve estupro e nem atentado violento ao pudor, ganhou força a versão do dr. Nelson Quirino e outros dois médicos do Instituto Médico Legal, que preferem ficar no anonimato. De acordo com eles, não houve crime sexual contra Gabrielli. Para os profissionais, cada um com mais de 10 anos de experiência em medicina legal, os ferimentos da menina são característicos de uma queda acidental. Essa possibilidade põe em dúvida a denúncia do Ministério Público que foi assinada pelo promotor Andrei Cunha Amorim, que alega que a menina foi estrangulada, jogada no chão e posteriormente sofrido abuso sexual. O laudo assinado pelo médico João Domingos Koerich, atesta a causa mortis por afogamento. O médico também afirma que em momento algum citou no laudo a violência sexual.
Contestação de peso
O legista Badan Palhares, doutor pela Unicamp, chefe da disciplina de medicina legal da Universidade de Campinas, também refutou categoricamente a tese inicial da promotoria, que apontou esganadura. “As marcas presentes na região do pescoço de Gabrielli foram resultado da reação de morte por afogamento”. Segundo ele, a opinião do legista Quirino, feita através da análise das fotos e laudos é válida e aponta o que aconteceu: Um acidente que resultou em afogamento e morte. Badan Palhares mostrou-se preocupado com a nomeação de um médico inexperiente (O laudo da menina foi o primeiro e único do médico João Koerich).
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