Saúde
 
21.08.2008

Fantasma do HIV continua
rondando os joinvilenses

 
Windson Prado
 

Mesmo com todos os investimentos em campanhas publicitárias para a conscientização da população para o uso do preservativo, na prevenção à Aids, no Brasil e no mundo, os índices de crescimento da população contaminada crescem a cada ano. De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para HIV e Aids (Unaids) divulgado no final do mês passado, mais de 30 mil novos casos são descobertos anualmente em todo o território nacional. A população mundial vivendo com HIV/Aids já chega a 33 milhões, desses 600 mil são brasileiros.

O relatório aponta que a incidência da doença está instável durante essa década, o que coloca o Brasil como um dos exemplos mundiais no combate ao HIV/Aids. O documento aponta também que 11 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência da doença. Em Joinville, a situação não é diferente. Desde 1986, quando o primeiro caso de HIV foi diagnosticado na cidade, o número de casos já chega a 2.541, resultando em 784 mortes, segundo Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA).

A responsável pela Unidade Sanitária, Cristina Kortmann, conta que ao contrário do que muita gente pensa, o aumento dos casos se dá devido à falta de conscientização da população. “As pessoas sabem que o vírus está ai. Sabem que se não se protegerem podem contrair a doença, mas ignoram o alerta e fazem sexo sem camisinha”, alerta e complementa: “Só o uso adequado do preservativo vai conseguir driblar o HIV”.

Incidência da doença é maior em heterossexuais

Ao contrário do que grande parte da população pensa, e até mesmo o Ministério da Saúde acreditava até um tempo atrás, hoje não existem mais os famosos “grupos de risco”, tanto é que a incidência da doença, como aponta tanto o relatório com os índices do CTA, a incidência de vítimas de HIV é maior na população heterossexual.

“Hoje a maioria dos casos de pessoas vivendo com HIV/Aids é heterossexual, em seguida estão os usuários de drogas, e em terceiro a comunidade homossexual. Essa inversão dos índices mostra que as campanhas voltadas àqueles grupos surtiram efeito, e que todos estão em risco se não se protegerem”, enfatiza a coordenadora da Unidade Sanitária e Epidemiológica, Cristina Kortmann.

Histórias de tristeza e de vitória
de portadores do vírus da Aids


I.H.P.R, de 52 anos, Técnica de laboratório.

Como você descobriu o vírus?
Na verdade, eu comecei a emagrecer muito de uma hora para outra. Não sabia o que é que eu tinha, e sentia muita dor no peito. Então fui ao médico e eles falaram que eu estava com pneumonia, isso em dezembro de 1998. Com pneumonia dupla, fui internada no Hospital Bethesda, lá fiquei muito mal, tive diversas paradas cardíacas. Então me trouxeram para o Hospital Regional, onde fiquei 26 dias praticamente em coma, tive infecção hospitalar e quase morri. Os médicos chamaram minha família e disseram que eu iria morrer. Quando eu dei entrada no hospital, o médico olhou para meu genro e disse, que eu estava com sintomas de contaminação de HIV, minha família ficou assustada, e os exames revelaram que eu realmente era portadora. Eu não sabia. E só fui saber quando saí do hospital, 40 dias depois de dar entrada, quando já tinha emagrecido 22 kg, mas estava bem, prestes a ganhar alta.

Como foi a reação de saber que era portadora?
Eu fiquei assustada, disse a ele que estava enganado, que eu não tinha razões para ser soropositiva. Ele então foi enfático e falou: a senhora tem HIV. Então olhei a ficha, o prontuário, e vi que estava escrito “HIV”. Foi um choque. Quando saí do quarto minha família já sabia, e me deram muito apoio. Foi bastante difícil porque eu não tinha o conhecimento que tenho hoje, eu achava que ia morrer.

Você sabe como contraiu o vírus?
Na verdade eu não sei. Na época eu era bem casada há mais de 12 anos, hoje ele morreu, vítima de acidente de carro. Depois que eu descobri que era portadora, ele fez exames e ficou provado que também tinha HIV. Todavia, tenho uma suspeita forte de que me contaminei no trabalho. Eu trabalhava em um laboratório de análises. Lá eu coletava sangue e fazia exames. Meu patrão era muito mão-de-vaca e não tinha a preocupação com a higienização e proteção dos funcionários. Nós tínhamos que usar a mesma luva diversas vezes. Lavávamos e colocávamos talco para utilizá-las novamente, muitas vezes, quando nos dávamos conta, as luvas já estavam furadas. Eu cansei de parar no final do dia e ver que a luva estava cheia de sangue. Quando chegava um paciente que tinha HIV, as meninas que trabalhavam comigo avisavam: “Cuidado, esse sangue tem bichinhos”. Mesmo assim, tenho quase certeza que me contaminei lá.

E como foi a vida depois de sair da UTI?
Hoje a minha vida é muito diferente da que eu levava. Estou dedicando mais tempo a mim. Não trabalho, mas sou uma pessoa muito ativa, eu ergui a cabeça e nunca decaí por causa disso. Hoje participo do grupo Convivência, do clube de mães, projetos de arte-terapia e tenho uma agenda bem cheia. Assim, nem tenho tempo de ficar doente.

Qual o conselho que você dá para garotada que está iniciando a vida sexual?
Use camisinha. Previna-se. É possível ter uma vida boa com o vírus. Mas o tratamento é muito difícil. E têm muitos efeitos colaterais. É muito melhor prevenir.

Maria, de 52 anos

Como a senhora descobriu que estava com o vírus?
Descobri que era portadora em 1996. Foi muito difícil. Eu sei que contraí porque não fiz sexo sem proteção. Eu namorava uma pessoa e ele era portador. Ele era muito galinha e não sabia que possuía o vírus. Por fim, ele me contaminou. Não usei a camisinha por falta de informação.

Você ainda tem contato com ele? Ficou um sentimento de revolta?
Sim, assim como eu, ele está em tratamento. Às vezes nos cruzamos pelo CTA, mas não temos muito contato. Não o culpo por eu estar contaminada. No começo eu fiquei muito revoltada, mas ele não sabia que estava com o vírus e eu sei que a responsabilidade de se prevenir também é minha. Se ele não quer se prevenir, o problema é dele. Eu tenho que ser consciente. A minha prevenção depende só de mim.

E como foi a reação de saber que era portadora do HIV?
Eu sempre fui pai e mãe. Na época, minha filha tinha 10 anos e dependia muito de mim. Ficava pensando que ia morrer em um ou dois meses, e o que seria da minha filha? Isso era muito triste. Eu ficava me preparando sempre para o pior. Mas estou aqui, firme e forte. Nunca fui internada, tive-se sim que tomar alguns remédios, mas superei.

O que mudou na sua vida com a notícia de ser soropositiva?
Muita coisa. A minha família foi a primeira a saber. Eles me deram e dão muita força. Eu acho que nossos laços fraternos cresceram muito. Hoje eu sou muito mais reservada, mas caseira. Eu era muito festeira. Agora, participo de muitas atividades, mas fiquei mais caseira. Desde então, eu me fechei para relacionamentos. Eu sinto muita falta de um namorado, mas tenho medo de me aproximar de alguém, sendo soropositiva.