| Vida&Saúde Dr. Drauzio Varella |
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O quadro clínico da dengue
A grande maioria das infecções pelo vírus da dengue passa despercebida. Calcula-se que existam de oito a dez pessoas infectadas para cada uma que desenvolve a doença.
Quando ela se manifesta, costuma respeitar três formas de apresentação clínica: dengue clássica, doença febril de intensidade leve a moderada; dengue hemorrágica, forma bem mais grave do que a anterior; e a síndrome do choque da dengue, forma raríssima, mas que pode ser fatal se não for tratada a tempo.
Crianças e adultos estão sujeitos à
dengue, mas nas crianças a evolução costuma ser mais
benigna. O período de incubação (da picada ao aparecimento
dos sintomas) geralmente dura de dois a sete dias, mas pode chegar a duas
semanas.
Os sintomas da dengue clássica surgem de forma abrupta: febre intermitente
de intensidade variável (que pode chegar à casa dos 39 graus
e provocar calafrios), dor forte de cabeça (concentrada principalmente
na região atrás dos olhos), dores nas costas (especialmente
na região lombar), nos músculos das pernas e nas articulações.
Como muitos atribuem a essas dores origem óssea, a doença antigamente
era conhecida pelo nome popular de “febre quebra-ossos”.
Queixas de dor à movimentação dos olhos são freqüentes,
bem como corrimento nasal e faringite, insônia, perda do apetite, desconforto
abdominal, náuseas, perversão do paladar, cansaço e astenia
profunda. O desânimo pode ser de tal ordem que o doente cai de cama
e a vida perde a graça.
No segundo dia de doença, pode surgir vermelhidão (exantema)
na face e no tronco, que se espalha pelo resto do corpo, poupando as palmas
das mãos e as plantas dos pés. Como o vermelho da pele fica
entremeado por áreas claras de 2mm a 5 mm, os livros de texto se referem
a elas como “ilhas brancas num mar vermelho”.
A doença é bifásica. Depois de dois ou três dias,
a febre cai, as dores diminuem e o cansaço melhora; parece que o pesadelo
acabou. Mas a alegria dura pouco: a febre e o cortejo de sintomas retornam,
geralmente menos intensos do que na primeira fase. Do terceiro ao quinto dia
dessa fase, o vermelhão está mais visível e são
comuns as queixas de queimação nas palmas das mãos e
plantas dos pés. Surgem ínguas no pescoço, nas fossas
supraclaviculares e nas regiões inguinais (virilhas). Mais três
ou quatro dias, a pele descama e os sintomas entram em remissão.
A separação entre as duas fases nem sempre é nítida
e, como a sintomatologia varia de intensidade, muitos classificam como fraca
ou forte a dengue que tiveram. Tipicamente, as duas fases reunidas terminam
de cinco a sete dias depois da instalação. Abruptamente, como
começou, a doença vai embora. Não são poucos,
no entanto, os que referem um rastro de fadiga e indisposição
persistente por semanas.
A dengue hemorrágica é bem mais grave. Rompem-se pequenos capilares
que deixam manchas na pele e provocam sangramentos nasais, gengivais, gastrintestinais,
urinários e ginecológicos. Como os vasos sanguíneos da
periferia se dilatam, a pressão cai e podem surgir sintomas de hipotensão:
tontura, visão turva, quedas e perda dos sentidos. Muito raramente,
esse quadro evolui para choque e morte, se não houver tratamento médico
intensivo.
Não se sabe ao certo por que a imensa maioria dos doentes adquire o
vírus e permanece assintomática, outros desenvolvem uma doença
incômoda, mas autolimitada e uns poucos apresentam a forma grave da
doença. Uma das teorias é que a forma hemorrágica estaria
associada a infecções por cepas mais virulentas do vírus;
outra supõe a existência de uma primeira infecção
assintomática que teria sensibilizado previamente o organismo, dando
origem a uma resposta imunológica desviada patologicamente contra os
capilares sanguíneos e as reações envolvidas na coagulação
do sangue.
Excetuados os raros casos de dengue hemorrágica, como os sintomas da
doença são indistinguíveis da gripe, na vigência
de uma epidemia, qualquer quadro gripal deve ser considerado suspeito de dengue.
A única forma de confirmar o diagnóstico é pedir um exame
de sangue para detectar a presença de anticorpos contra componentes
do vírus na circulação da pessoa infectada. O isolamento
do vírus no sangue pode ser conseguido, mas é tecnicamente mais
complicado e só dá resultado positivo nas fases de viremia,
que ocorrem nos primeiros três a cinco dias de infecção.
Não existem medicamentos antivirais para combater a dengue; o tratamento
é sintomático. As pessoas doentes devem fazer repouso, não
se agasalhar excessivamente e beber muito líquido para evitar a desidratação
provocada pela febre, responsável por muitos sintomas desagradáveis.
Quando a temperatura chega perto dos 38 graus, tomar antitérmicos que
não contenham o ácido acetilsalicílico (AAS, Aspirina,
Buferin, Melhoral, Doril, etc.), porque essa substância interfere nos
mecanismos de coagulação e pode agravar o sangramento no caso
da forma hemorrágica. Medicamentos à base de dipirona constituem
boa opção para abaixar a temperatura.
Apesar da epidemia que se dissemina em várias partes do país
e da necessidade absoluta de eliminar os focos de criação do
mosquito transmissor da dengue, não há razão para pânico.
A grande maioria das pessoas picadas permanece assintomática. Nas crianças,
os sintomas costumam ser mais discretos, e, embora muito desagradável,
o curso da doença é autolimitado na quase totalidade dos casos.